A Idade Média e os “séculos das trevas”, por Ghisalberti

É comum conferir uma conotação pejorativa a certas expressões da linguagem corrente. Isso ocorre, por exemplo, com “coisas da Idade Média!”, exclamação utilizada, frequentemente, para indicar uma situação particularmente retrógrada, de dificuldades materiais ou de relações sociais desequilibradas. Mesmo no campo cultural, costuma-se falar dos séculos da Idade Média em termos de “idade das trevas” para a razão, não só limitada nas suas descobertas, mas, sobretudo, submetida a forças que a imediam de se expandir na liberdade de pensamento ou em novas descobertas.

A primeira consideração que se tem de fazer a respeito é que não se pode elaborar um juízo único, negativo ou positivo, sobre uma época histórica com a duração de um milênio (do século V ao século XIV). Nenhum estudioso minimamente atualizado pode afirmar que os mil anos da Idade Média foram privados de toda e qualquer evolução, verificando-se neles a manutenção, imutável e homogênea, de um mesmo nível de vida e de civilização. No plano da história da civilização, porém, constatam-se pelo menos três épocas ou períodos medievais: a alta Idade Média, assinalada pela formação dos reinos bárbaro-romanos e do feudalismo, no Ocidente, e pela permanência do império bizantino e pela formação dos Estados eslavos, no Oriente, e, ainda, pela forte expansão e progressiva consolidação do Islã nas terras banhadas pelo Mediterrâneo; a Idade Média central (séculos XI-XIII), palco de uma transformação geral das relações entre Oriente e Ocidente, de uma forte renovação cultural e econômica no Ocidente, que supera o feudalismo, funda as universidades e estabelece, pelas cruzadas, novas modalidades de conflito com o Islã; por fim, a baixa Idade Média, em que se assiste ao encontro entre as pressões particularistas das nações e as instituições universalistas do império e do papado, como ao nascimento dos Estados nacionais europeus, enquanto a cultura se expande com o surgimento de novos “clássicos” (antes disso, conheciam-se apenas alguns dos grandes vultos da Antiguidade, como Aristóteles, Ptolomeu, Galeno, Cícero, Sêneca, Virgílio).

Não se deve, portanto, condenar ou absolver a Idade Média em bloco. É necessário estudá-la em seu contexto histórico, relacionando-a com a sucessão dos eventos de que nos dão testemunho as diversas fontes chegadas até nós: começando pelas línguas nacionais, que falamos ainda hoje, e pelas áreas residenciais onde vivemos, que, em alguns casos, consistem em amplicações de estabelecimentos construídos pelos homens medievais. Mesmo um juízo histórico sobre a religião cristã – sobre a sua influência na formação e na expressão da civilização medieval, sobre a validade das suas conquistas no plano religioso e sobre as formas típicas de vida cristã, características da Idade Média – deve levar em conta as observações feitas anteriormente. Por isso, é necessário recorrer a distinções de ordem temporal, a análises precisas do contexto do fenômeno ou dos fatos que se pretende avaliar.

Para responder à pergunta se o cristianismo medieval foi intolerante, opressor e triunfalista, são necessárias algumas reflexões preliminares. Antes de tudo, nós temos uma ideia de intolerância e liberdade religiosa que amadureceu na Idade Moderna, especialmente em concomitância com o estabelecimento das diversas confissões religiosas nascidads da Reforma protestante. A sensibilidade medieval delineava-se de forma diferente, sendo dominante a convicção de que o cristianismo era a única religião verdadeira e que era obrigação moral de todos os cristãos defendê-la com o máximo empenho. Tal empenho em defender a única religião salvadora induziu, por vezes, as instituições eclesiásticas ao que hoje nos parece uma doutrina e uma prática intolerantes: admitir a possibilidade de impor-se, mesmo com o emprego da força, aosque não quisessem converter-se ao cristianismo (em particular, judeus e muçulmanos), ou aos que não quisessem aceitar a formulação ortodoxa do dogma (os hereges), ou, ainda, aos que exercessem uma prática de vida cristã nã0-aprovada pelas autoridades oficiais.

Esta linha de “resguardar” a fé religiosa – não mais defendida pela instituição eclesiástica, visto que está longe da sensibilidade da maioria quase absoluta dos crentes do nosso tempo – constituía, no entanto, consenso quase unânime nas populações cristás da Idade Média. Por isso, não se pode falar de uma forma de opressão praticada por uma hierarquia ávida de poder e insensível às orientações da consciência popular. Temos testemunhos vivos de como a consciência religiosa havia amadurecido, paulatinamente, a necessidade de uma “evangelização” que levasse em conta as condições históricas e culturais das pessoas, isoladamente, e de povos inteiros. Basta recordar Francisco de Assis que, coerentemente com o primado da paz proclamado em cada página do Evangelho, reivindicava o banimento do uso da força nas Cruzadas.

Em todo caso, não podemos culpar em bloco a sensibilidade religiosa dos homens e das mulheres daquele tempo, por não terem compreendido e avaliado a importância da consciência do indivíduo e por terem marginalizado os mais fracos, as mulheres e os diferentes. A própria ideia de consciência, no sentido moderno, como a de liberdade e de deliberação subjetiva, por longo tempo não foi depreendida do texto bíblico. Nem o direito romano ou suas codificações transmitidas à Idade Média foram de ajuda nisso, pois eram firmemente centrados na ideia do primado da lei, divina e humana, e em uma estrutura hierquizada da sociedade e da ordem. Por isso, é necessário relacionar os comportamentos à situação histórica real, para que se possa avaliar a expressão dos autores medievais representativos,  por vezes considerada formidável conquista da história da humanidade. (Lembre-se do profundo entrelaçamento entre a história do cristianismo e a história da humanidade, nos cânticos de Dante Alighieri).

(GHISALBERTI, Alessandro. As Raízes Medievais do Pensamento Moderno. Trad. Sivar Hoeppner Ferreira. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2011. 2a Edição. Pp. 11-13)

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