O motor imóvel na metafísica aristotélica

Selecionei trechos do livro XII da Metafísica de Aristóteles. Esses trechos tratam do “primeiro motor”, o “motor imóvel”, que, de acordo com Aristóteles, é a causa primeira de todas as coisas que existem.

A tradução é de Lucas Angioni e pode ser encontrada aqui.

METAFÍSICA – LIVRO XII (trechos)

Alguém poderia indagar: de que tipo de não-ente procede o vir a ser? De fato, “não-ente” comporta três modos. Dado que há algo em potência, não procede de qualquer não-ente, mas, a partir de um não-ente distinto, é um ente distinto que vem a ser. Não é suficiente dizer “todas as coisas juntas”. Elas são diferentes pela matéria, pois por que haveriam de se tornar infinitas, mas não uma só? A Inteligência é uma só, de modo que, se também a matéria fosse uma só, surgiria efetivamente tal e tal coisa, que a matéria era em potência.

Portanto, são três as causas e três os princípios: a contrariedade são dois (dos quais um é a determinação e a forma, outro, a privação), e o terceiro é a matéria.

(…)

Dado que, no domínio das coisas naturais, aquilo que propicia movimento em relação a um ser humano é um ser humano, e, no domínio das coisas que se dão por pensamento, é a forma ou seu contrário, de certo modo as causas são três, mas, de outro, são quatro. De fato, a arte medicinal é, de certo modo, a saúde, a arte de construir é, de certo modo, a forma da casa, assim como um ser humano gera um ser humano.

Além dessas causas, há, ainda, aquilo que, sendo primeiro que tudo, move todas as coisas.

(…)

Dado que aquilo que é movido e propicia movimento é intermediário, há algo que propicia movimento sem ser movido, sendo uma essência e uma atividade eterna. Propiciam movimento desse modo aquilo que é desejável e aquilo que é suscetível de ser pensado: propiciam movimento sem serem movidos. As primeiras entre essas coisas são as mesmas. De fato, aquilo que aparece como belo é apetecível,mas o objeto do querer, primeiramente, é aquilo que é realmente belo. Desejamo-lo porque parece-nos ser belo, em vez de parecer ser belo porque desejamo-lo, pois, de fato, é o pensamento que é princípio.

(…)

Ora, se algo é movido, pode ser de outro modo; conseqüentemente, se sua atividade for a locomoção primeira, ele poderá ser de outro modo na exata medida em que sofre movimento – no lugar, ainda que não em sua essência. Mas, dado que há algo que propicia movimento sendo ele próprio não-suscetível de ser movido, e que está em atividade, não é possível, de modo algum, que tal coisa seja de outro modo. Ora, a locomoção é a primeira das mudanças, e é primeira a locomoção circular. É esta que tal coisa promove.

Portanto, tal coisa é necessariamente, e, na medida em que é necessariamente, é de modo belo, e é assim que ela é princípio. De fato, “necessário” se diz desses modos: por violência, porque é contra o impulso; aquilo sem o que não se dá o que é bom, e aquilo que não pode ser de outro modo, mas é de modo absoluto.
Portanto, é de um princípio desse tipo que depende o céu e a natureza. Sua fruição é como aquela que nos é a melhor, por pouco tempo (tal princípio é sempre desse modo, mas, para nós, isso é impossível), dado que sua atividade é prazer (por isso, o mais aprazível são vigília, percepção, pensamento, e, devido a tais coisas, as expectativas e as memórias).

(…)

Assim, pelo que foi dito, é evidente que há uma essência eterna, não-suscetível de movimento e separada das coisas sensíveis. Também está provado que não é possível que tal essência possua grandeza, pois ela é indivisível e desprovida de partes (de fato, ela propicia movimento por um tempo infinito, mas nenhuma coisa finita possui capacidade infinita; dado que qualquer grandeza ou é infinita ou finita, por isso, ela não poderia ter uma grandeza finita, nem uma grandeza infinita, porque,em geral, não há nenhuma grandeza infinita). Além disso, está provado que ela não é suscetível a modificações e alterações, pois todos os demais movimentos são posteriores ao movimento local. Assim, é evidente porque essas coisas são desse modo.

(…)

O princípio, isto é, o primeiro entre os entes, é não-suscetível de movimento, em si mesmo e por concomitância, e promove o movimento primeiro e eterno, que é único. Dado que, necessariamente, aquilo que é movido é movido por algo; dado que o primeiro motor é, em si mesmo, não-suscetível de movimento; dado que o movimento eterno é promovido por algo eterno, e um movimento único, por algo único; dado que, além da locomoção simples do Todo, a qual dizemos que a primeira essência não-suscetível de movimento promove, vemos que há outras locomoções eternas, a dos planetas (de fato, o corpo que se move em círculo é eterno e sem-repouso; provou-se isso nas discussões sobre a natureza), necessariamente, também cada uma dessas locomoções é movida por uma essência eterna que, em si mesma, é não-suscetível de movimento. De fato, a natureza dos astros é eterna, sendo uma essência, e o que os move é eterno e anterior ao que é movido, e necessariamente é essência aquilo que é anterior a uma essência. Assim, evidentemente, é necessário que exista a mesma quantidade de essências eternas em suas naturezas e, em si mesmas, não-suscetíveis de movimento e desprovidas de grandeza, pela causa antes mencionada.

(…)

Que o céu é um só, é evidente. De fato, se os céus fossem muitos, como os homens, o princípio de cada um seria um pela forma, mas, numericamente, seriam muitos. Mas tudo que é numericamente múltiplo possui matéria (de fato, há uma única e mesma definição para as coisas múltiplas, por exemplo, para ser humano, mas Sócrates é um só); no entanto, o que é primeiramente “aquilo que o ser é” não possui matéria, pois é efetividade. Portanto, o primeiro motor, sendo não-suscetível de movimento, é um só em definição e em número; também o é, portanto, aquilo que se move sempre continuamente: portanto, o céu é um só.

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6 respostas para O motor imóvel na metafísica aristotélica

  1. isa loompa disse:

    Muito bom o seu blog. Adorei. Criei recentemente meu blog de psicologia, onde também abordarei temas da filosofia, pois tem muita relação. Faça uma visitinha depois!! Coloquei o seu blog nos meus links de lá!! http://psicosmica.blogspot.com.br/

    Bjs

  2. angelina 1991 disse:

    o motor imóvel de Aristóteles sendo um ser divino e alguém que move o universo na sua essência espiritual. Aquele que todo o ser humano crê tem confiança nele,aquele que criou o ceu e terra e move tudo com o seu espírito

  3. angelina 1991 disse:

    Segundo eu na minha vertente religiosa o motor imóvel que Aristóteles reflete e aquele que tudo cria com amor,com sabedoria e ciência , que tudo revelou com amor.este ser imitado e infinito que santifica ,perdoa e Deus.muitos filósofos duvidara da sua própria existência ,um grande sábio Santo Augustinho de Hipona dizia na sua grande sabedoria.A mente humana e´ miserável e aspira a facilidade. ela pode ter esperança porque e´ possível a mudança,e ainda acrescenta Deus e´ um circulo infinito,cujo centro esta em toda parte e cuja circunferência não
    esta em nenhuma lado.todo o ser humano pode dar uma daquilo que motor imóvel de Aristóteles mas não uma resposta exata porque Ele e´ um ser invisível.

  4. Anônimo disse:

    A mente humana e´ miserável e aspira a facilidade. ela pode ter esperança porque e´ possível a mudança,e ainda acrescenta Deus e´ um circulo infinito,cujo centro esta em toda parte e cuja circunferência não
    esta em nenhuma lado.todo o ser humano pode dar uma daquilo que motor imóvel de Aristóteles mas não uma resposta exata porque Ele e´ um ser invisível.

  5. o motor imóvel de Aristóteles é constituído de quatro entes incondicionais: a ubiquidade espacial no reino hostil da treva fria contem, a energia contínua e passiva, a sensibilidade granulada e ativa, e a lei dualidade polar na intrínseca agência passiva e ativa situada no círculo com o ponto no centro. o círculo figura a lei dualidade. o interior do círculo figura a energia contínua e passiva. o exterior figura a ubiquidade espacial no reino hostil da treva fria. e o ponto figura a sensibilidade granulada e ativa. esses quatro entes formam o tetragrama d.e.u.s. (d) de dualidade, (e) de energia, (u) de ubiquidade e (s) de sensibilidade. por causa da treva fria, o ser sensibilidade inerente ao ser energia introverte dando origem ao próton, princípio da intensa lei grave até a iminência da extroversão dando origem ao fogo ou luz e calor. esta ação está no Gênesis simetrizado: no princípio deus criou o céu côncavo e a terra convexa se estabelecendo no espaço-tempo dessa simetria oscilando entre o convexo e o côncavo manifestando a fenomenologia em números de movimentos que variam de 2 por segundo a 5 quintilhões por segundo conforme estatísticas do teclado universal. se sensibilidade não existiria os órgãos dos sentidos: tato-visão, tato-audição, tato-paladar e tato-olfato necessários a percepção de cada fenômeno representado por uma faixa desse teclado universal.

  6. Sallijoel, correção do meu texto. (Sem sensibilidade não existiríamos para perceber a nós e o mundo a nossa volta. principalmente, a inteligência que interpretou o motor imóvel de Aristóteles na oficinadefilosofia.com coerente explicitamente com a minha exposição.

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