A águia e os estorninhos

Eu, sr. Sarsi, acredito que os filósofos voam como águias e não como estorninhos. É bem verdade que as águias, por serem raras, oferecem pouca chance de serem vistas e muito menos de serem ouvidas, e os estorninhos, que voam em bando, param em todos os cantos enchendo o céu de gritos e rumores, tirando o sossego do mundo. Mas queira Deus que os verdadeiros filósofos fossem como as águias e não como a fênix.

Sr. Sarsi, infinito é o bando dos estúpidos, isto é, daqueles que não entendem nada; muitos são aqueles que sabem alguma coisa de filosofia; poucos são aqueles que entendem um pouco de filosofia; pouquíssimos são aqueles que conhecem alguma parte dela; um só, Deus, é o que a entende toda. Assim que, para relatar aquilo que eu deduzi, ocupando-me da ciência que através de demonstrações e de discurso humano se pode conseguir dos homens, eu acredito firmemente que quanto mais ela participar da perfeição tanto menor número de conclusões prometerá ensinar, tanto menor número delas demonstrará, e, consequentemente, tanto menos agradará, e tanto menor será o número de seus seguidores.

Pelo contrário, porém, a magnificência dos títulos, a grandiosidade e a abundância das promessas, atraindo a natural curiosidade dos homens, mantendo-os entretidos perpetuamente com mentiras e quimeras, sem nunca proporcionar-lhes o prazer da profundidade de uma única demonstração, onde o gosto uma vez apurado saiba reconhecer a falta de sal nos alimentos costumeiros, conseguirão desta forma manter ocupado grande número deles. E grande sorte terá alguém que, iluminado por uma luz natural, saberá sair dos confusos labirintos nos quais teria continuado a caminhar com o comum e no entanto sempre mais amarrado.

Julgar, então, as teorias de alguém em matéria de filosofia pelo número dos seguidores, considero pouco exato.

(GALILEU. O Ensaiador)

Aproveito para indicar a leitura de um texto excelente sobre a questão dos valores científicos que tem como título justamente A Águia e os Estorninhos. O texto é de Pablo Mariconda e Hugh Lacey, e me foi apresentado pelo amigo André Mendonça.

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Esse post foi publicado em Filosofia, Questão 06: A ciência, Questão 07: O que o homem pode conhecer e marcado . Guardar link permanente.

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