Política e a língua portuguesa, por Desidério Murcho

Há uma grande diferença entre cuidar da língua portuguesa, no sentido de procurar escrever bem, expandindo a sua capacidade expressiva e tornando-a veículo de expressão de ideias sofisticadas e não apenas para comprar batatas; e pensar que cuidar da língua portuguesa é defender a sua superioridade intrínseca ou a sua imposição às pessoas.

Defender a superioridade intrsínseca da nossa língua, por ser nossa, é fascismo linguístico e é indefensável. As línguas não são superiores umas às outras. Têm é maior ou menor produção científica, artística e filosófica nessa língua. Mas qualquer língua pode ser burilada para fazer ciência, artes ou filosofia, se quem fala essa língua quiser fazer tal coisa. Todas as línguas nascem incultas, e tornam-se cultas à medida que as pessoas o quiserem. Ora, neste ponto, a língua portuguesa não é uma língua com grande produção cultural, científica ou filosófica. Podemos mudar isso? Sim, se o quisermos.

Mas oponho-me a qualquer política do estado que obrigue as pessoas a fazer isso. Isso deve acontecer se as pessoas livremente quiserem fazer isso. Se quiserem antes escrever em hebraico, devem ter a liberdade de o fazer, e o estado deve apoiá-las porque o estado serve para apoiar pessoas, não são as pessoas que servem apoiar os desígnios abstractos do estado. Na verdade, como é evidente, não há desígnios do estado; o que há é algumas pessoas com mais poder que outras e que impõem às outras por via do estado as suas vontades linguísticas. E se está errado que o Mariano Gago imponha a língua inglesa ao João, estaria igualmente errado que lhe impusesse a língua hebraica ou portuguesa ou castelhana. O que está errado é o obrigar, não é a língua que é objecto da obrigação.

Aquilo a que algumas pessoas chamam a defesa da língua portuguesa é na realidade uma forma disfarçada de opressão política. Se os meus filhos tiverem muita curiosidade sobre o Egipto clássico, por exemplo, ou astrofísica, como raio se safam se só souberem ler português? Claro, os filhos dos pais cultos, saberão línguas cultas que não o português e por isso ficam em situação vantajosa relativamente aos outros, que ficam a chuchar no dedo convencidos de que dominam uma Grande Língua Universal, ao mesmo tempo que não têm acesso à cultura, à ciência e à filosofia, como os outros. Daí que os hinos cantados à língua portuguesa ocultem uma discriminação social injusta: é que quem canta esses hinos trata de preparar muito bem os seus filhos para ler bem outras línguas, ao mesmo tempo que quer impedir as universidades de preparar os filhos culturalmente carenciados de dominar outra língua. Se as universidades e o ensino em geral insistirem numa língua culta qualquer estarão a dar acesso à cultura, à ciência e à filosofia a milhares de estudantes que de outro modo ficam em desvantagem relativamente aos filhos dos ricos — e que sem isso ficam completamente dependentes das aulas dos seus professores, por não poderem estudar sozinhos o que lhes interessa, o que é mais uma forma de opressão política.

As pessoas devem ser livres para escrever e falar a língua que lhes apetecer. O papel do estado é unicamente o de zelar para que os mais ricos não tenham ainda mais privilégios pela via linguística. O papel do estado não é impor uma dada língua, seja ela o hebraico ou o português, contra a vontade das pessoas. As chamadas políticas da língua são invariavelmente formas disfarçadas de lixar os pobres, fechando-os num beco linguístico sem saída. O que o estado deveria fazer, por exemplo, seria financiar edições sérias dos clássicos de língua portuguesa — sem esquecer os clássicos brasileiros ou angolanos ou moçambicanos, como é costume esquecer-se. Hoje em dia se uma pessoa quiser comprar uma edição fiável de Fernando Pessoa ou Eça de Queirós, provavelmente não encontra: só há edições deturpadas, que são cópias de cópias de cópias, sem que a fixação do texto tenha seguido critérios de qualidade académica. Mas, claro, fazer isto seria fazer trabalho real em vez de pregar aos peixes sobre a superioridade essencial da língua portuguesa. E é sempre mais fácil pregar aos peixes.

 

Texto publicado originalmente por Desidério Murcho no excelente blog De Rerum Natura.

Link para o texto original: http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/politica-e-lingua-portuguesa.html

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