O mito da alienação juvenil

É surpreendente como os professores, modo geral, consideram seus alunos como pessoas alienadas. Pergunto: será que nossos jovens são realmente alienados? O que queremos dizer quando afirmamos que eles são alienados? O que nos leva a pensar que a juventude é alienada?

Tentarei responder aqui a essas perguntas por meio de um pequeno ensaio.

Os jovens são alienados?

A juventude teve um papel essencial em todos os grandes acontecimentos do século XX. As revoluções e as guerras foram realizadas pelas mãos juvenis; e, desde pelo menos os anos 30, são os jovens que intensamente experimentam as novidades comportamentais e ideológicas no mundo ocidental.

Entretanto, a partir da década de 80, a juventude tem sido apresentada como uma parte da população alheia à militância política, filosófica e religiosa. Este não é um diagnóstico localizado; é uma conclusão que seria aplicável, de forma geral, a todo o Ocidente. O fundamento para a identificação dos jovens à indiferença social e política é a suposta falta de intervenção nos assuntos importantes e controversos.

Uma análise mais profunda sobre esta situação pode indicar, no entanto, que se está errando o alvo quando se posiciona a mira sobre o comportamento juvenil.

A juventude rebelde

Qualquer pesquisa superficial pode demonstrar que a indiferença juvenil é uma ilusão. Nos anos 80, 90 e no início do novo século, foram inúmeras as atuações firmes dos jovens em incontáveis eventos.

Nos anos 80, a consolidação da arte urbana norte-americana, com seu novo funk e suas danças frenéticas e o aparecimento do grafitti; a cultura yuppie; opostamente, a cultura da “geração saúde”, com seus esportes e sua alimentação saudável; a preocupação com o meio-ambiente, que levou ao surgimento de entidades controvertidas como o Greenpeace; a militância político-religiosa nos países do Leste Europeu e os milhões nas ruas da Polônia, quando o Papa visitou seu país natal; o terrorismo político dentro de democracias, com grupos como o IRA e o ETA; a filosofia existencialista, adotada por muitos jovens pela influência de Camus e Sartre; as comemorações quando o Muro de Berlim foi finalmente derrubado; os embates da Praça da Paz Celestial em Pequim.

Nos anos 90, a mobilização de jovens voluntários de todo o mundo para salvar baleias no Ártico; o surgimento da cultura rave, com suas festas intermináveis movidas a combustível entorpecente; as mobilizações contra as Guerras do Golfo; com a Internet, o surgimento de novas modalidades de relações humanas e de protesto; a resistência sérvia ao ataque da OTAN; o ressurgimento do sentimento religioso juvenil, capaz de reunir milhões de jovens fiéis em missas do Papa ao redor do mundo; movimentos políticos localizados, como as manifestações contra o governo Menem na Argentina, contra o governo Collor no Brasil.

Nos primeiros anos do século XXI, a afirmação radical, por parte dos jovens, das culturas e religiões nos Estados laicos – como o caso dos judeus, cristãos e muçulmanos na França; a renovada denúncia da Guerra do Iraque, por um lado, e a conseqüente defesa apaixonada da ação norte-americana, por outro; as novas formas de “arte urbana”, organizadas pela internet, com ações de massa rápidas e pontuais; o crescente interesse dos jovens pela filosofia, demonstrado pela crescente quantidade de livros com temas filosóficos dedicados à população jovem, cujo exemplo emblemático é o bestseller “O mundo de Sofia” de Jostein Gaarder.

A juventude malvista

Como observamos, não se pode afirmar que a juventude é alienada sem que se qualifique o que se quer dizer com isso. Por que motivo, então, esta idéia veio a tornar-se um lugar-comum?

A mídia parece incentivar a percepção de que os jovens sejam alienados dos fatos políticos e sociais de sua geração. Em outras palavras, os formadores de opinião – ou seja, os jornalistas, os roteiristas de novelas e filmes, os apresentadores de shows, os escritores e os professores – parecem acreditar que a juventude não esteja pensando acerca dos problemas mundiais.

Talvez os formadores de opinião realmente considerem que os jovens de seu meio social sejam alienados – o que nos leva à pergunta: o que faz com que a geração anterior considere a nova geração alienada?

A juventude aprisionada

Uma resposta possível à pergunta sobre os motivos que levam uma geração a compreender a geração seguinte como alienada é a resposta que afirma que uma geração vê as outras espelhadas em si própria. O padrão de ideologia revolucionária da geração que hoje tem mais de trinta e cinco anos – e que, de fato, é a geração que está no comando do poder midiático, político, econômico e, em certa medida, mesmo o religioso – é o marxismo e sua contraparte, o antimarxismo, que pode se apresentar como liberalismo econômico, democratismo político ou conservadorismo religioso. Para grande parte da geração que participou dos embates dos anos 60 e 70, o pensamento crítico é praticamente sinônimo de pensamento marxista; para outra parte da mesma geração, o pensamento crítico é sinônimo de desmascaramento do marxismo.

Assim, a percepção de que as batalhas da juventude atual não se desenvolvem no âmbito das contradições apontadas – ou criadas – pelo marxismo se transforma, subjetivamente, na percepção de que os jovens hoje são alienados.

Este tipo de concepção, porém, é obviamente sofístico – nele existe uma petição de princípio. Ao se assumir que só é consciente quem é marxista, se está adotando, a priori, o princípio marxista de que se não se é marxista, se é alienado. Em outras palavras: a conclusão do argumento pode ser encontrada, camuflada, entre as premissas. Do mesmo modo, ao assumir que só quem luta contra a alienação marxista é social e políticamente consciente, se está adotando um marxismo às avessas, uma posição que igualmente apresenta uma petição de princípio.

Um aspecto que não pode ser esquecido é que a construção da percepção sobre a juventude é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que os formadores de opinião apreendem a realidade e processam-na segundo seus valores, também distribuem, na mídia, nas cátedras e nos púlpitos, a perspectiva deturpada sobre os jovens aos próprios jovens.

Libertando a juventude

A construção da percepção sobre a juventude é uma via de mão dupla: se os jovens apresentam seu comportamento à sociedade, a sociedade também neles imprime suas expectativas comportamentais. Um caso particularmente grave deste tipo de “regurgitação ideológica” acontece freqüentemente na relação entre os professores e os alunos nas escolas e universidades. Os estudantes encontram-se numa situação particularmente suscetível à adoção de uma ideologia social e política que fazia sentido há trinta ou quarenta anos, mas que não é mais adequada à realidade contemporânea.

Parte da juventude, portanto, encontra-se aprisionada num círculo de valores e crenças que podem tornar-se paralisantes: o jovem que acredita numa solução política à moda das revoluções estudantis de 68 não terá eficiência em sua ação no mundo contemporâneo; o estudante que pretende transformar a sociedade por meio da criação de, por exemplo, ligas camponesas está fadado ao fracasso. Do mesmo modo, um pensamento condicionado à luta contra o marxismo não pode ser capaz de se adaptar à compreensão das formas de consciência contemporâneas, com suas problemáticas próprias. Aparentemente, contudo, são estes os modelos perseguidos ainda hoje pela maioria dos jovens que pretendem atuar de forma crítica no mundo – haja visto o exemplo dos movimentos estudantis contemporâneos, incapazes de qualquer contestação ou exigência séria, perdidos na paródia de si mesmos.

A saída da prisão ideológica dos jovens passa, necessariamente, pela compreensão, por parte dos formadores nas escolas, nas faculdades, na mídia e nas igrejas, dos problemas apresentados pelo nosso tempo. Somente a partir do franco entendimento das oposições, dos dilemas e dos paradoxos nos quais a nova geração jovem se movimenta os formadores poderão esclarecer e orientar, sem todavia apresentar respostas empacotadas e prontas para o consumo – e, especialmente, sem procurar encaixar o comportamento dos moços e moças contemporâneos em padrões que foram construídos antes mesmo que eles nascessem.

Então, ficará claro que os jovens de hoje decididamente não são alienados de seu tempo, mas pertencem, naturalmente, ao tempo que lhes é próprio. E ficará claro também que, no fundo, é justamente a parte madura da população que se alienou, sem perceber, dos novos valores desenvolvidos e incorporados pela juventude – alienação que ocorre por meio da cristalização de valores que também é, no fim das contas, algo absolutamente natural e inevitável.

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4 respostas para O mito da alienação juvenil

  1. Dúvida disse:

    Já que para deixar de ser considerada “alienada” a juventude deve abandonar as práticas defasadas da luta estudantil da década de 60,gostaria de saber na sua opinião qual éa forma de ação propícia para que a juventude logre êxito em seus anseios como nos anos 60 sò que com métodos que reflitam sua época.Grato desde já.

  2. ADORE O SEU ARTIGO NOTA MILLLLLLLLL!

  3. NATHIELE disse:

    estou fazendo uma pesquisa do q os jovens acham do mito sera q voces poderiam mim ajudar?
    e mim de algunha definicao…
    sobre mito.

  4. li e gostei muito sobre esta filosofia juvenil, so queria também ter acesso as perguntas assim como tenho acesso as respostas, é uma maneira de nós jovens aprendermos mais sobre a situação social e não aceitarmos os que as pessoas falam dizendo que não sabemos de nada ou até mesmo dizer que somos alienadas e ficamos com a boca escancarada cheia de dente esperando a morte chegar!!!!

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