O que é a filosofia? – A resposta de Henri Bergson

“Há uma coisa que todos aqueles dentre nós que ensinam história da filosofia puderam notar, todos aqueles que têm ocasião de voltar freqüentemente ao estudo das mesmas doutrinas e aprofundá-las assim cada vez mais. Um sistema filosófico parece, primeiramente, erguer-se como um edifício completo, de uma sábia arquitetura, onde tudo está disposto para que possamos alojar comodamente todos os problemas. Experimentamos, ao contemplá-lo assim, uma alegria estética reforçada por uma satisfação profissional. Com efeito, não somente encontramos ali a ordem na complicação (uma ordem que, algumas vezes, agrada-nos completar ao descrevê-la), mas temos também o contentamento de dizer-nos que sabemos de onde vêm os materiais e como a construção foi efetuada. Nos problemas que o filósofo colocou reconhecemos as questões que eram agitadas em torno dele. Nas soluções que ele dá cremos reencontrar, ordenados ou desarranjados, mas apenas modificados, os elementos das filosofias anteriores ou contemporâneas. Tal ponto de vista deve ter sido sugerido por esta, tal outro por aquela. Com o que ele leu, ouviu, aprendeu, poderíamos, sem dúvida, recompor a maior parte do que ele fez. Pomos, pois, mãos à obra: remontamos às fontes, pesamos as influências, extraímos as semelhanças, e acabamos por ver distintamente na doutrina aquilo que procurávamos: uma síntese mais ou menos original das idéias em meio às quais o filósofo viveu.

Mas um contato freqüentemente renovado com o pensamento do mestre pode nos levar, por uma impregnação gradual, a um sentimento totalmente diferente. Não digo que o trabalho de comparação que antes efetuamos tenha sido tempo perdido; sem este esforço prévio para recompor uma filosofia com o que não é ela própria e para ligá-la ao que existiu em torno dela, não atingiríamos jamais o que é verdadeiramente ela; pois o espírito humano é feito de tal maneira que ele só começa a compreender o novo depois de ter tentado tudo para reduzi-lo ao antigo. Mas, na medida em que buscamos nos instalar no pensamento do filósofo em lugar de dar voltas em torno dele, vemos a doutrina se transfigurar. Primeiramente, a complicação diminui. Depois as partes penetram umas nas outras. Enfim, tudo se concentra em um ponto único, do qual sentimos que poderíamos nos aproximar pouco a pouco, embora nunca possamos atingi-lo.

Neste ponto está algo de simples, de infinitamente simples, de tão extraordinariamente simples que o filósofo não conseguiu jamais exprimi-lo. Esta é a razão por que falou durante toda a sua vida. Não podia formular o que levava no espírito sem se sentir obrigado a corrigir sua fórmula, depois a corrigir sua correção: assim, de teoria em teoria, retificando-se quando acreditava completar-se, ele só fez, através de uma complicação que só atraía a complicação e desenvolvimentos justapostos a desenvolvimentos, fornecer com aproximação crescente a simplicidade de sua intuição original. Toda a complexidade de sua doutrina, que se estenderia ao infinito, é apenas a incomensurabilidade entre sua intuição simples e os meios de que dispunha para exprimi-la.”

Bergson, Henri. A intuição filosófica, in Os Pensadores XXXVIII. São Paulo: Abril Cultural, 1974, pp. 61-62.

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