Encontro “Questões de Filosofia Contemporânea”

Convido a todos os interessados em Filosofia para o Encontro Questões de Filosofia Contemporânea, que ocorrerá na próxima terça-feira, 01/03/2016, na UERJ.

Palestrantes:

Prof. Dr. Olival Freire (UFBA): Sobre o engajamento da filosofia da ciência com os fundamentos da teoria quântica

Prof. Dr. José Ternes (UFG): Bachelard e a filosofia

Prof. Dr. André Luís de Oliveira Mendonça (IMS/UERJ): Filosofia de problemas e problemas de filosofia: da filosofia ‘aplicada’ à filosofia ‘pura’. E de volta

* * *

LOCAL: Auditório do PPGFIL, 9º andar da UERJ (Campus Maracanã)

DATA E HORÁRIO: 01/03/2016, 10:00h.

A entrada é livre.

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Convite – defesa de tese

Convido a todos os interessados para a defesa de minha tese de doutorado, intitulada A dialética da realidade: Gênese e desenvolvimento do surracionalismo de Bachelard.

A banca será composta pelos seguintes professores: Profª Drª Marly Bulcão Lassance Britto (orientadora) – UERJ; Profª Vera Portocarrero – UERJ; Prof. André Luís de Oliveira Mendonça – IMS/UERJ; Prof Dr Olival Freire – UFBA; Profª. José Ternes – UFG.

A defesa ocorrerá na próxima segunda-feira, 29/02/2016, às 15h, no auditório do PPGFIL, no 9º andar da UERJ (Campus Maracanã). A entrada é livre, como em todos os eventos do tipo.

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A Escola Eleata

Assim como a Escola de Éfeso, a Escola Eleata, ou Escola Italiana, teve muita influência no pensamento posterior.

Os três mais importantes filósofos de Eléia foram Xenófanes (570 – c. 470 a.C.), Parmênides (510 – 440 a.C.) e Zenão (490 – 430 a.C.); os três abordaram o mesmo problema e deram respostas aproximadas. O problema abordado foi a questão da permanência e da identidade diante da mudança dos seres, ou a questão da unidade e da universalidade do Ser diante da multiplicidade dos seres particulares.

Este problema foi também abordado por Heráclito. A resposta de Heráclito foi ligeiramente diferente da apresentada pelos eleatas, embora a tradição da história da filosofia muitas vezes tenha considerado as teses de Heráclito não apenas um pouco distantes, mas opostas às da Escola de Eléia.

A resposta ao problema a respeito da natureza da realidade – se a realidade é una ou múltipla, se é estável ou dinâmica – foi dada, do mesmo modo que na filosofia de Heráclito, por meio da proposta de separação entre a natureza visível múltipla e variável e a realidade racional.

A grande novidade dos eleatas, contudo, é a atribuição do Um que abarca toda a multiplicidade dos seres ao Absoluto imutável. Para Heráclito, a realidade do Logos não era o Absoluto imutável; era também mudança.

O primeiro dos eleatas, Xenófanes, não era natural de Eléia, mas de Colófão. Contudo, por ter ido viver em Eléia, onde foi professor de Parmênides e ficou conhecido, além de ter influenciado toda a tradição eleata, é tratado como se fosse o primeiro dos eleatas.

Xenófanes propôs que o único princípio e ser de todas as coisas é uma unidade, um inteiro; essa unidade não pode ser qualificada, pois qualquer qualificação excluiria seu contrário, o que tornaria a unidade incompleta, e, consequentemente, menor que um, menos que o inteiro. Então, a unidade não pode ser limitada nem ilimitada, nem móvel nem estática.

Uma idéia inovadora de Xenófanes é que foi o primeiro a identificar essa unidade do ser que tudo abarca a Deus, a um Deus único e uno. Esse Deus é necessário, e, consequentemente, não pode ter sido criado por nada, sendo incriado desde sempre; como Deus é o ser absoluto, não pode ter sido criado por outro ser, e muito menos por um não-ser. Além disso, Deus não tem atributos humanos; os homens atribuem a Deus características suas (do mesmo modo que outro animal atribuiria a Deus características próprias de sua espécie). Portanto, Xenófanes defendeu, pela primeira vez, uma concepção filosófica de Deus: o ser necessário, uno e absoluto, sem começo nem fim no tempo ou no espaço, no qual todas as coisas particulares têm seu ser. Essa concepção foi e é extremamente importante na história do pensamento: é este o Deus sugerido por Aristóteles por meio da figura do primeiro motor; é este o Deus que as cinco vias de Tomás demonstram; é neste Deus que os filósofos teístas do século XVIII acreditam; é esta a concepção de Deus compatível inteiramente com a ciência contemporânea.

O segundo dos filósofos eleatas, Parmênides, foi aluno de Xenófanes e de suas idéias partiu para desenvolver seu próprio pensamento.

A primeira tese de Parmênides é que só uma coisa é, ou seja, só uma coisa tem a propriedade de ser, de existir: somente o Ser é. Isso significa que todas as coisas que são, que existem, compõem uma unidade, pois são no Ser. Contudo, obviamente há uma multiplicidade de coisas que são; essa multiplicidade é evidente pelos próprios fenômenos, ou seja, pelos próprios conhecimentos advindos dos sentidos. Parmênides concilia essa dupla realidade propondo que existe uma realidade formal única, o Ser; e que existe uma realidade fenomênica múltipla, composta por todas as coisas que são, ou seja, os seres.

Para Parmênides, o Ser é equivalente à concepção de Deus de Xenófanes, e é o único Ser verdadeiro; todas as outras coisas são enquanto coisas nas quais subsiste o Ser imóvel e uno. Isso significa que o movimento e a multiplicidade são o que não é o Ser nas coisas; ora, o não-ser não é, o não-ser não existe; consequentemente, a aparência de multiplicidade e movimento que temos por meio dos sentidos não é parte do Ser, e não existe realmente.

Percebe-se aqui que Parmênides tem uma posição surpreendentemente próxima à de Heráclito, que afirma que a realidade é o logos e que as pessoas geralmente não conhecem o logos, mas permanecem no mundo da multiplicidade e da mudança, um mundo de sonhos e não de vigília. Mas Parmênides tem, ao mesmo tempo, uma posição em parte diferente daquela de Heráclito. Enquanto Heráclito segue o caminho da conciliação dos opostos para chegar à unidade, propondo que da aparente dualidade se chega ao Uno, ao logos, Parmênides segue o caminho de propor a unidade do Ser imediatamente: o Ser não é divisível em opostos, o Ser simplesmente é. Este também é o sentido da discordância de Parmênides em relação aos pitagóricos: do mesmo modo que Heráclito, os pitagóricos afirmavam que da conciliação dos opostos se chega à unidade, ou seja: que a realidade é divisível, por ser número. Para os eleatas, contudo, a realidade simplesmente não é número, não é absolutamente divisível.

O terceiro grande filósofo eleata foi Zenão. Aluno de Parmênides, defendeu as idéias de seu mestre contra as dos pitagóricos. É conhecido pelos paradoxos com os quais nega a realidade do movimento.

Os paradoxos de Zenão são argumentos com os quais demonstra que é impossível que a realidade seja descontínua, múltipla e divisível como queriam os Pitagóricos, e que, portanto, a realidade deveria ser una, contínua e indivisível, o que era a tese de sua Escola. Na doxografia abaixo seus paradoxos são apresentados por Aristóteles.

TEXTOS DE APOIO

Xenófanes (570-470 a.C.)

Sobreviveram fragmentos de um poema, no qual criticava e satirizava várias idéias, incluindo a crença em deuses antropomórficos e a veneração dos gregos ao atletismo.

DOXOGRAFIA

[Fala o Estrangeiro de Eléia.] É uma espécie de mito que cada um parece contar-nos, como se fôssemos crianças. Um dizendo que são três os seres, mas combatem às vezes entre si alguns deles, e outras, tornados amigos, casam-se, têm filhos e os alimentam; outro diz que há dois, úmido e seco ou quente e frio, fá-los coabitar e casar-se. E entre nós a gente eleática, a começar de Xenófanes e ainda de mais longe, não se vê senão a unidade no que chamamos de “todas as coisas”, e assim nos explica em seus mitos.

(PLATÃO. Sofista)

Pois Parmênides parece referir-se ao um, segundo o conceito, e Melisso ao um, segundo a matéria. Por isso aquele diz que o um é limitado, e este, que é ilimitado. Xenófanes, o primeiro a postular a unidade (de Parmênides diz-se que foi discípulo dele), nada esclareceu, nem parece que vislumbrou nenhuma dessas duas naturezas, mas, dirigindo o olhar a todo o céu, diz que o um é o deus. Portanto, como dissemos, devem ser deixados na presente investigação, sobretudo dos dentre eles, por serem um tanto ingênuos, a saber, Xenófanes e Melisso.

(ARISTÓTELES. Metafísica)

FRAGMENTOS de XENÓFANES

Muitíssimas vezes mencionaram atos ímpios dos deuses, roubo, adultério e fraude mútua.”

Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm.”

Os egípcios dizem que os deuses têm nariz chato e são negros, os trácios, que eles têm olhos verdes e cabelos ruivos.”

Parmênides (510-440 a.C.)

Chegaram ao nosso tempo alguns fragmentos de um poema dividido em duas partes. Na primeira, O caminho da verdade, explica como a realidade é uma; a mudança é impossível; a existência é eterna, uniforme e imutável. Na segunda parte, O caminho da opinião, explica o mundo de aparências, que é falso e enganoso. Essas ideias influenciaram fortemente Platão.

DOXOGRAFIA

Parmênides parece estar vinculado à unidade formal, enquanto Melisso, à unidade material. Parmênides parece, neste ponto, raciocinar com mais penetração. Julgando que fora do ser o não-ser nada é, forçosamente admite que só uma coisa é, a saber, o ser, e nenhuma outra… Mas, constrangido a seguir o real, admitindo ao mesmo tempo a unidade formal e a pluralidade sensível, estabelece duas causas e dois princípios: quente e frio, vale dizer, Fogo e Terra. Destes dois princípios ele ordena um (o quente) ao ser, o outro ao não-ser. Examinando a verdade nos seres, como seres admitia só as coisas sensíveis.

(ARISTÓTELES. Metafísica)

Uns negam absolutamente geração e corrupção, pois nenhum dos seres nasce ou perece, a não ser em aparência para nós. Tal é a doutrina da escola de Melisso e de Parmênides, doutrina que, por excelente que seja, não pode ser tida como fundada sobre a natureza das coisas.. Pois, se existem seres engendrados e absolutamente imóveis, pertencem mais a ciência outra que não à da natureza, e anterior a ela. Mas estes filósofos, ao conceberem a existência apenas para a substância das coisas sensíveis, crendo plenamente nisso, e os primeiros que sem tais naturezas imóveis não pode haver nem conhecimento nem sabedoria, não faziam mais que transferir aos seres sensíveis as razões só válidas para as realidades. Partindo desses raciocínios, deixando de lado o testemunho dos sentidos e negligenciando-o sob o pretexto de que se deve seguir a razão, alguns pensadores ensinam que o todo é um, imóvel e ilimitado; pois o limite só poderia limitar em relação ao vazio. Tais são as causas pelas quais esses pensadores desenvolveram as teorias sobre a verdade. Certamente, segundo este raciocínio, parece suceder assim com estas coisas; mas, se se tomam em conta fatos, semelhante opinião parece uma loucura.

(ARISTÓTELES. Do Céu)

Segundo Alexandre, Teofrasto, no primeiro livro de sua Física, relata assim o raciocínio de Parmênides: “O que está fora do ser não é ser; o não-ser é nada; o ser, portanto, é um”. E Eudemo conta da seguinte forma: “O que está fora do ser não é ser; e só de uma maneira se chama o ser; um, portanto, é o ser”. Se Eudemo escreveu isso em alguma outra parte com tanta sabedoria, não sei dizer. Mas nos Físicos, a respeito de Parmênides, escreveu o seguinte, donde é igualmente possível deduzir o que foi dito: “Parmênides não parece demonstrar que um é o ser, nem se alguém com ele concordaria em chamar o ser de uma forma, a não ser o que foi revelado nele de cada um como o homem dentre os homens”.

E dando em detalhe as palavras, a palavra do ser subsiste em todas as coisas como uma e ela mesma, assim, como a do animal nos animais. Da mesma maneira, se todos os seres fossem belos e nada fosse tomar o que não é belo, mas belas serão todas as coisas, e na verdade não é um só o belo mas muitos (pois a cor será bela em relação à familiaridade, aos costumes ou por outro motivo qualquer), assim também os seres todos serão, mas não um nem o mesmo; pois um é a água e outro, o fogo. Por conseguinte, ninguém leve a mal se Parmênides seguiu palavras não merecedoras de fé e se foi enganado pelas que então ele não soube explicar claramente – pois ninguém o disse de muitos modos, e foi Platão o primeiro que introduziu o duplo sentido, nem o sentido em si nem o por casualidade. Parece que ele foi totalmente enganado pelas palavras. É isso que foi observado das suas palavras e contradições e o raciocinar; pois não concordava, se não parecesse forçoso. Os antecessores, porém, o afirmaram sem provas.

(SIMPLÍCIO. Física)

FRAGMENTOS de PARMÊNIDES

SOBRE A NATUREZA

Necessário é o dizer e pensar que (o) ente é; pois é ser,

e nada não é; isto eu te mando considerar.

Pois primeiro desta via de inquérito eu te afasto,

mas depois daquela outra, em que mortais que nada sabem

erram, duplas cabeças, pois o imediato em seus

peitos dirige errante pensamento; e são levados

como surdos e cegos; perplexas, indecisas massas,

para os quais ser e não ser é reputado o mesmo

e não o mesmo, e de tudo é reversível o caminho.

* * *

Não, impossível que isso prevaleça, ser o não ente.

Tu porém desta via de inquérito afasta o pensamento;

nem o hábito multiexperiente por esta via te force;

exercer sem visão um olho, e ressoante um ouvido,

e a língua, mas discerne em discurso controversa tese

por mim exposta.

Só ainda o mito de uma via

resta, que é; e sobre esta índicios existem,

bem muitos, de que ingênito sendo é também imperecível,

pois é todo inteiro, inabalável e sem fim;

nem jamais era nem será, pois é agora todo junto,

uno, contínuo; pois que geração procurarias dele?

Por onde, donde crescido? Nem de não ente permitirei

que digas e pense; pois não dizível nem pensável

é que não é; que necessidade o teria impelido

a depois ou antes, se do nada iniciado, nascer?

Assim ou totalmente necessário ser ou não.

Nem jamais do que em certo modo é permitia força de fé

nascer algo além dele; por isso nem nascer

nem perecer deixou justiça, afrouxando amarras,

mas mantém; e a decisão sobre isto está no seguinte:

é ou não é; está portanto decidido, como é necessário,

uma via abandonar, impensável, inominável, pois verdadeira

via não é, e sim a outra, de modo a se encontrar e ser real.

E como depois pereceria o que é? Como poderia nascer?

Pois se nasceu, não é, nem também se um dia é para ser.

Assim geração é extinta e fora de inquérito perecimento.

Nem divisível é, pois é todo idêntico;

nem algo em uma parte mais, que o impedisse de conter-se,

nem também algo menos, mas é todo cheio do que é,

por isso é todo contínuo; pois ente a ente adere.

Por outro lado, imóvel em limites de grandes liames

é sem princípio e sem pausa, pois geração e perecimento

bem longe afastaram-se, rechaçou-os fé verdadeira.

O mesmo e no mesmo persistindo em si mesmo pousa.

e assim firmado aí persiste; pois firme a Necessidade

em liames o mantém, de limite que em volta o encerra,

para ser lei que não sem termo seja o ente;

pois é não carente; não sendo, de tudo careceria.

O mesmo é pensar e em vista do que é pensamento.

Pois não é sem o que é, no qual é revelado em palavra,

acharás o que pensar; pois nem era ou é ou será

outro fora do que é, pois Moira o encadeou

a ser inteiro e imóvel; por isso tudo será nome

quanto os mortais estatuíram, convictos de ser verdade,

engendrar-se e perecer, ser e também não,

e lugar cambiar e cor brilhante alterar.

Então, pois limite é extremo, bem terminado é,

de todo lado, semelhante a volume de esfera bem redonda,

do centro equilibrado em tudo; pois ele nem mesmo algo maior

nem algo menor é necessário ser aqui ou ali;

pois nem não-ente é, que o impeça de chegar

ao igual, nem é que fosse a partir do ente

aqui mais e ali menos, pois é todo inviolado;

pois a si de todo igual, igualmente em limites se encontra.

Neste ponto encerro fidedigna palavra e pensamento

sobre a verdade; e opiniões mortais a partir daqui

aprende, a ordem enganadora de minhas palavras ouvindo.

Pois duas formas estatuíram que suas sentenças nomeassem,

das quais uma não se deve – no que estão errantes -;

em contrários separaram o compacto e sinais puseram

à parte um do outro, de um lado, etéreo fogo de chama,

suave e muito leve, em tudo o mesmo que ele próprio

mas não o mesmo que o outro; e aquilo em si mesmo puseram

em contrário, noite sem brilho, compacto denso e pesado.

A ordem do mundo, verossímil em todos os pontos, eu te revelo,

para que nunca sentença de mortais te ultrapasse.”

Zenão (490-430 a.C.)

DOXOGRAFIA

Por outro lado, a dificuldade que Zenão aponta, dizendo que, “se o lugar é alguma coisa, ele está em alguma coisa”, não é difícil resolver; pois nada impede que em outra coisa esteja o primeiro lugar, mas seguramente não como naquele lugar etc. A dificuldade de Zenão exige uma reflexão; com efeito, se todo ser está num lugar, é claro que haverá também um lugar do lugar, e isto vai ao infinito. A isto mesmo parece levar também à dificuldade de Zenão. De fato, julga ele que todo ser está em algum lugar; se o lugar é dos seres, onde estaria ele? Certamente em outro lugar, e aquele, por sua vez, em outro, e assim por diante… Para Zenão, diremos que o “onde” se diz de muitas maneiras: se ele julgou estarem os seres num lugar, não julgou bem; pois ninguém diria que saúde, coragem e outras coisas mil estão num lugar; nem mesmo, é claro, sendo o lugar tal como se afirma. Se de outra forma se diz “o onde”, também o lugar seria onde; ora, o limite do corpo é o onde do corpo; pois é o extremo.

(ARISTÓTELES. Física)

Há quatro argumentos de Zenão a respeito do movimento que oferecem dificuldades a quem queira resolvê-las.

O Primeiro Argumento: A impossibilidade do movimento é deduzida do fato de que o móvel transportado deve chegar primeiro à metade antes de alcançar o termo; sobre isso discorremos nos argumentos anteriores. Por isso o argumento de Zenão supõe, sem razão, que os infinitos ou tocados sucessivamente num tempo infinito. Com efeito, a extensão e o tempo, e em geral todo conteúdo, chamam-se infinito em dois sentidos, seja em divisão, seja com relação aos extremos. Sem dúvida, os infinitos em quantidade não podem ser tocados num tempo finito; mas os infinitos em divisão, sem, uma vez que o próprio tempo também é infinito dessa maneira. Por conseguinte, é no tempo infinito e não no tempo finito que se pode percorrer o infinito, e, se se tocam infinitos, é por infinitos, não por finitos. Temos muitos argumentos contrários à opinião comum, como a de Zenão, que não admite mover-se ou atravessar o estádio.

O Segundo Argumento: é o que leva o nome de Aquiles. É o seguinte: o mais lento na corrida jamais será alcançado pelo mais rápido; pois o que persegue deve sempre começar por atingir o ponto donde partiu o que foge. É o mesmo argumento que o da dicotomia: a única diferença está em que, se a grandeza sucessivamente acrescentada é bem dividida, não o é mais em dois.

O Terceiro Argumento: Pretende que a flecha, ao ser projetada, esteja em repouso. É a consequência da suposição de que o tempo seja composto de instantes; se se recusa esta hipótese, não há mais o silogismo. Zenão comete um paralogismo: pois, se toda coisa – diz ele – está num dado momento em repouso ou em movimento (mas nada está em movimento) quando está num espaço igual a si mesmo, o que é projetado está sempre no momento presente (e toda coisa num lugar a si mesmo está no momento presente), a flecha projetada está sempre imóvel.

O Quarto Argumento: Trata de massas iguais que se movem em sentido contrário no estádio ao longo de outras massas iguais, umas a partir do fim do estádio, outras do meio, com velocidades iguais; a consequência pretendida é a de que metade do tempo seja igual a seu dobro. O paralogismo consiste em se pensar que uma grandeza igual, com velocidade igual, se movimente num tempo igual, tanto ao longo do que está em movimento como ao longo do que está em repouso. Mas isso é falso. Sejam AA as de massas iguais que estão imóveis; BB, as que partem do meio dos AA e são iguais a essas em número e tamanho; CC, as que partem da extremidade, iguais àquelas em número e tamanho e de mesma velocidade que as dos BB. Consequências: o primeiro B está na extremidade ao mesmo tempo que o primeiro C, visto que se movem paralelamente. Do outro lado, os CC percorreram todo o intervalo ao longo de todos os BB, e os BB, metade do intervalo ao longo dos AA; por conseguinte, só metade do tempo; com efeito, para os grupos tomados dois a dois, há igualdade do tempo de passagem diante de cada A. Mas ao mesmo tempo os BB passaram diante de todos os CC; pois o primeiro B e o primeiro C estão, ao mesmo tempo, em extremidades opostas, sendo o tempo para cada um dos BB – diz ele – o primeiro que para os CC, porque os dois passam em tempo igual ao longo dos AA. Este é o argumento, e o mais conveniente, como diz Eudemo, pelo fato de o paralogismo ser evidente, pois as massas que se movem em sentido contrário umas às outras afastam-se com dupla distância no mesmo tempo em que o que se move ao longo do que está imóvel se afasta pela metade, e será de igual velocidade à daquelas.

(ARISTÓTELES. Física)

FRAGMENTOS de ZENÃO

Se o ser não tivesse grandeza, também não poderia existir, mas, se existe, necessariamente cada parte tem certa grandeza e espessura, e distância uma da outra. E a respeito da parte que está diante dela o mesmo se diz. Pois esta também terá grandeza e uma outra estará diante dela. É o mesmo, então, dizer isso uma vez apenas e dizê-lo sempre. Pois nenhuma parte do ser será limite extremo, nem estará uma parte sem relação com outra. Assim, se múltiplas são as coisas, necessariamente são pequenas e grandes; pequenas a tal ponto que não têm grandeza, grandes a tal ponto que são infinitas.”

Diz Zenão que uma coisa que não tem grandeza e espessura, nem massa, não poderia existir. Pois, se fosse acrescentada a uma outra coisa, em dada a aumentaria; pois, se uma grandeza que nada é a uma outra se acrescenta, nada pode ganhar em grandeza esta última. E assim já o acrescentado nada seria. Mas se, subtraída uma grandeza, a outra em nada diminuir, e, ao contrário, acrescentada uma, a outra não aumentar, é evidente que o acrescentado nada era, nem o subtraído.”

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1.000.000 de visitas!

Hoje é um dia de festa para o oficinadefilosofia.com:

o blog acabou de alcançar a marca de um milhão de visitantes!

A todos vocês, muito obrigado!

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A questão de Lógica no 1o exame de qualificação da UERJ – vestibular 2016

Hoje de manhã, foi realizado o 1o exame de qualificação do vestibular de 2016 da UERJ.

Fui ver agora a prova. Uma das questões (a de número 14) me chamou a atenção. Ela diz:

Antônio Prata, ao comentar o ataque ao jornal Charlie Hebdo, construiu uma série de variações do argumento típico do método dedutivo, conhecido como “silogismo” e normalmente organizado na forma de três sentenças em sequência.

A organização do silogismo sintetiza a estrutura do próprio método dedutivo, que se encontra melhor apresentada em:

(A) premissa geral – premissa particular – conclusão

(B) premissa particular – premissa geral – conclusão

(C) premissa geral – segunda premissa geral – conclusão particular

(D) premissa particular – segunda premissa particular – conclusão geral

Há vários equívocos na questão.

Em primeiro lugar, não se pode afirmar que “o método dedutivo é conhecido também como silogismo”. Eles não são a mesma coisa. Todo silogismo é um caso de raciocínio dedutivo, mas nem todo raciocínio dedutivo é um silogismo. A dedução é uma operação mental; o silogismo é a forma lógica dessa operação.

Em segundo lugar, o texto diz que “normalmente o silogismo está organizado na forma de três sentenças em sequência”. O enunciado diz “normalmente”, mas o que é “normalmente”? Afinal, o silogismo pode também ter somente duas sentenças (entimema) ou mais de três (polissilogismo, sorites). Entimema, polissilogismo e sorites são tão casos de silogismo quanto o categórico: não são nem mais “normais” nem menos “normais”. A afirmação do enunciado é equivalente a dizer: “nas palavras de língua portuguesa, normalmente a consoante B é seguida da vogal A”. Não faz sentido. Há diferentes tipos de silogismo, e nenhum pode ser considerado “mais normal” que outro, do mesmo modo que não se pode considerar que uma sílaba seja considerada “mais normal” que outra. “Silogismo normal”… só se inventaram um novo tipo de raciocínio!

Em terceiro lugar, o comando da questão propõe que se indique “a melhor apresentação do silogismo” ou da “estrutura do método dedutivo”. Como assim, “silogismo melhor apresentado”, “estrutura do método dedutivo melhor apresentada”? Afinal, há inúmeras possibilidades de apresentar a estrutura lógica do silogismo, e não existe nenhuma razão racional para dizer que uma é “melhor” do que outra. Dizer que existe uma forma de expor o silogismo “melhor” do que outra expressa um juízo de valor, não uma regra lógica. Por isso, o comando da questão é, do ponto de vista lógico, absurdo.

Em quarto lugar, as alternativas dizem “premissa geral”, “premissa particular” et cetera, nessa linha. Ora, isso é simplesmente errado. Na lógica dedutiva não existe “premissa geral” nem “premissa particular”. Afinal, não se trata simplesmente da utilização de “termos gerais” (como “todos”) ou “particulares” (como “este”). É perfeitamente possível, por exemplo, fazer uma dedução somente utilizando “termos gerais”: “Todos os cariocas são fluminenses; todos os fluminenses são brasileiros; portanto, os cariocas são também brasileiros”. O que se utiliza em lógica dedutiva são “termo menor”, “termo médio” e “termo maior”, sem nenhuma relação necessária com ser “geral” ou “particular”. No exemplo dado, “carioca” é termo menor; “fluminense” é termo médio; “brasileiro” é termo maior. Por isso, não se pode falar em “premissa geral” nem “premissa particular”. O que temos no silogismo categórico é: uma premissa maior (que liga o termo médio ao termo maior); uma premissa menor (que liga o termo menor ao termo médio); e uma conclusão (que liga o termo menor ao termo maior, sem usar o termo médio).

Em quinto e último lugar, concluindo tudo o que foi dito acima, é simplesmente absurdo, errado, falso, dizer que a alternativa (A) – que seria a correta de acordo com o gabarito – é um exemplo “melhor” de silogismo do que a alternativa (B). Quer dizer que se for invertida a ordem da “premissa maior” (e não “premissa geral”) e da “premissa menor” (e não “premissa particular”), então o argumento deixa de ser um silogismo? Faça-me o favor!

Vou ilustrar isso tudo com um exemplo simples.

Veja:

(1) A prova de vestibular pode ter questões imperfeitas, pois é escrita por pessoas.

(2) A prova de vestibular é escrita por pessoas.

Logo, a prova de vestibular pode ter questões imperfeitas.

(3) Pessoas podem escrever questões imperfeitas.

A prova de vestibular é escrita por pessoas.

Logo, a prova de vestibular pode ter questões imperfeitas.

(4) As pessoas pertencem ao conjunto de seres que podem escrever questões de vestibular.

Questões imperfeitas podem ser escritas por pessoas.

Logo, provas de vestibular podem ter questões imperfeitas.

O raciocínio (1) é dedutivo, mas não está escrito sob a forma de silogismo.

O raciocínio (2) é dedutivo, é um silogismo, mas não apresenta uma de suas premissas: ele é um entimema, e tem uma de suas premissas meramente subentendida.

O raciocínio (3) é dedutivo, é um silogismo categórico, e apresenta primeiro a premissa menor e depois a premissa maior.

O raciocínio (4) é dedutivo, é um silogismo categórico, e apresenta primeiro a premissa maior e depois a premissa menor.

Todos são raciocínios dedutivos válidos (e olha que nem falamos de raciocínios dedutivos inválidos, que não deixam de ser raciocínios dedutivos por isso!). O argumento (1) é o único que não se constitui como silogismo. Todos os outros são silogismos perfeitamente “normais” (para falar como o enunciado). Não há um “melhor” (!) do que outro.

Mas, de acordo com a banca que formulou a questão da UERJ, somente o raciocínio (4) é um verdadeiro raciocínio dedutivo!!!

Como é possível que um conjunto tão completo de erros primários, grosseiros, totais tenha lugar numa questão de vestibular da UERJ?

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Os 20 filósofos essenciais do ENEM

1. Os filósofos pré-socráticos: os primeiros filósofos e cientistas (séc. VI a.C.). Preocupam-se mais com a questão da origem e da constituição da natureza (a questão da physis) do que com as questões éticas, políticas e epistemológicas.

2. Os sofistas: os primeiros professores profissionais de argumentação e retórica. São os primeiros “humanistas”. Defendem que “o homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras) e que a verdade é relativa à força dos argumentos (Górgias).

3. Sócrates: o primeiro filósofo de fato. Faz oposição aos sofistas, por eles cobrarem pelos ensinamentos e não visarem à compreensão da verdade. Para Sócrates, o conhecimento mais importante é a consciência da própria ignorância.

4. Platão: aluno de Sócrates. Desenvolve a  Teoria das Ideias. É contrário à democracia, vista como um regime no qual os mais ignorantes governam. Defende o governo dos mais sábios.

5. Aristóteles: aluno de Platão. Critica a Teoria das Ideias. Afirma ser necessário utilizar os sentidos para conhecer. Para ele, a virtude está na justa medida. A felicidade é o fim a que visam todas as ações humanas.

6. Filosofia medieval: o processo de conciliação entre o pensamento filosófico grego e helênico e a religião cristã. Dois grandes períodos: a Patrística (do séc. IV ao VI; o principal representante é Agostinho) e a Escolástica (do séc. XI ao XV; o principal representante é Tomás de Aquino).

7. Thomas More: também conhecido como Thomas Morus, escreve, no séc. XVI, Utopia, descrição literária e filosófica de uma sociedade ideal, sem dinheiro nem violência contra as pessoas.

8. Maquiavel: escreve, também no séc. XVI, O Príncipe, no qual tenta apresentar as leis de funcionamento da política não a partir de uma idealização, mas a partir da história grega, romana e italiana.

9. René Descartes: no séc. XVII, o racionalista Descartes procura fundamentar todo o conhecimento não pela tradição nem pela experiência sensorial, mas pela razão.

10. Francis Bacon: propõe que a ciência funcionava por método indutivo: a repetição das observações e experimentos permitiria a inferência das leis de funcionamento da natureza. O erro do conhecimento é atribuído a ídolos: os ídolos da tribo, da caverna, do fórum e do teatro.

11. Thomas Hobbes: no séc. XVII, escreve Leviatã, onde defende que o Estado absolutista é necessário para evitar a guerra de todos contra todos. É um contratualista. É também empirista, afirmando que todo o conhecimento humano deriva das impressões sensoriais.

12. John Locke: concorda com o empirismo de Hobbes, mas discorda da defesa do Estado absolutista. Locke é um contratualista e jusnaturalista (acredita que existam leis naturais) que defende que o Estado deve manter e proteger todos os direitos dos cidadãos (direito à vida, à liberdade e à propriedade privada), exceto o direito de fazer justiça pelas próprias mãos.

13. Jean-Jacques Rousseau: no séc. XVIII, Rousseau afirma que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, especialmente por meio da propriedade privada. Essa é a base da tese do bom selvagem. Rousseau é um contratualista.

14. David Hume: o empirista David Hume, no séc. XVIII, aponta o problema da indução. Afirma que todo o conhecimento indutivo, incluindo a ciência, é inseguro, pois é baseado no mero hábito, e não na estrutura da natureza. Não é possível obter um conhecimento geral a partir de um conjunto limitado de dados.

15. Immanuel Kant: no século XVIII, defende que tanto o racionalismo quanto o empirismo têm razão parcialmente. Defende que é preciso conceber o conhecimento como uma síntese entre a coisa-em-si externa e uma estrutura prévia de conhecimento. A ideia de que o conhecimento revela mais sobre nós mesmos do que sobre a coisa conhecida é chamada por ele de revolução copernicana na filosofia. No campo da ética, criou o imperativo categórico, que diz que antes de agir o sujeito deve generalizar hipoteticamente sua ação para toda a humanidade – se o resultado de sua ação generalizada for benéfico para todos, ela deve ser praticada; se for maléfico, não deve.

16. Hegel: transforma o conceito de “dialética”: para Hegel, a dialética não tem dois pólos, mas três – tese, antítese e síntese, que se constitui como nova tese.

17. Bentham, Mill e o Utilitarismo: afirmam que devemos sempre agir sempre visando ao maior bem para a maior quantidade de pessoas.

18. Karl Marx: no século XIX, cria o materialismo dialético. Para compreender a sociedade, é preciso compreender sua infra-estrutura (o processo de produção). A superestrutura (valores, ideias, religião, cultura, educação et cetera) é mera consequência necessária da infraestrutura.

19. Jean-Paul Sartre: para Sartre (séc. XX), todo homem vive na liberdade absoluta. “O homem é condenado a ser livre”: não pode escapar do fato de que todas as suas ações são de sua inteira e exclusiva responsabilidade. O homem é livre mesmo que decida seguir ordens – pois o ato de seguir ordens não é necessário, e sim uma escolha livre de não ser livre, escolha que o homem pode mudar a qualquer momento. Sartre é um existencialista: para ele, a existência é anterior à essência, que é constituída livremente por cada homem.

20. Michel Foucault: no pensamento de Foucault (séc. XX), o poder não existe como algo de que alguém possa ter a “posse”; o poder não é localizado espacialmente, mas está distribuído em todas as relações sociais. Poder não se detém: se exerce. A forma do exercício do poder pode ser violenta ou sutil.

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“Verdade” – por Foucault

O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder (não é a recompensa dos espíritos livres, o filho das longas solidões, o privilégio daqueles que souberam se libertar). A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.

Em nossas sociedades, a ‘economia política’ da verdade tem cinco características historicamente importantes: a ‘verdade’ é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem; está submetida a uma constante incitação econômica e política (necessidade de verdade tanto para a produção econômica, quanto para o poder político); é objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão no corpo social é relativamente grande); é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação); enfim, é objeto de debate político e de confronto social (as lutas ‘ideológicas’).

(FOUCAULT, Michel. Entrevista a Alexandre Fontana.In: Microfísica do Poder.
Rio de Janeiro: Graal, 1979. p.12-13)

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